Fabrizio Pieroni - Diretor da Associação dos Procuradores do
Estado de São Paulo (APESP)
Em outubro, o Brasil viverá dois momentos que, à primeira
vista, pouco parecem ter em comum. Milhões de brasileiros irão às urnas
escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Poucos dias depois,
celebraremos o Dia das Crianças. A proximidade das datas sugere uma pergunta
que fazemos com menos frequência do que deveríamos: que cidadãos estamos
formando para as eleições que virão depois desta?
Falamos muito, e com razão, sobre a importância do voto. Mas
a democracia não começa diante da urna. Antes de aprender em quem votar, uma
criança precisa compreender por que votamos, e isso pressupõe formar cidadãos
muito antes de formar eleitores.
Não se trata de transportar disputas partidárias para a sala
de aula, muito menos de antecipar para a infância as polarizações do mundo
adulto. Educação política não é educação partidária. Ao contrário: seu
propósito deve ser oferecer instrumentos para que crianças e jovens, no futuro,
possam compreender a realidade, formular seus próprios juízos e fazer suas
próprias escolhas.
Isso passa por explicar, em linguagem compatível com cada
idade, o que é o Estado, por que temos uma Constituição, para que o poder é
dividido, quais são nossos direitos e deveres e, sobretudo, por que aqueles que
governam também estão submetidos às regras.
A legislação brasileira acaba de dar um passo relevante
nessa direção. Em julho deste ano, a Lei nº 15.468 alterou a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação para incluir educação política e direitos da cidadania como
componente curricular obrigatório da educação básica. A mudança é oportuna, mas
seu alcance dependerá menos da capacidade de transmitir definições e mais da
disposição de transformar conceitos aparentemente abstratos em experiências
reconhecíveis na vida cotidiana.
Afinal, o Estado pode parecer uma abstração até que se olhe
ao redor.
Ele está na escola, no posto de saúde, na praça, na
iluminação da rua, na coleta de lixo, no transporte coletivo, na segurança
pública. Muito antes de conhecer a palavra “Estado”, uma criança já convive
diariamente com suas escolhas, suas realizações e também com suas
insuficiências.
Há, porém, uma dimensão dessa formação que ainda recebe
pouca atenção: a compreensão do dinheiro público.
Uma criança é perfeitamente capaz de assimilar uma ideia
elementar, embora frequentemente esquecida no debate entre adultos: dinheiro
público não é dinheiro de ninguém. É dinheiro de todos.
Os recursos destinados a escolas, hospitais, segurança,
infraestrutura e políticas sociais são, em grande medida, provenientes dos
tributos pagos pela sociedade. E, como todo recurso, são finitos. Dessa
constatação decorre uma das lições mais importantes sobre o funcionamento do
Estado: governar é também escolher.
Toda política pública envolve prioridades. Destinar recursos
a determinada finalidade significa, em algum grau, decidir onde eles não serão
empregados. Não há contradição entre reconhecer direitos e discutir seus
custos. Ao contrário, compreender como financiá-los e transformá-los em
políticas sustentáveis é condição para que deixem de existir apenas no papel.
É justamente nos períodos eleitorais que essa compreensão se
torna ainda mais necessária.
Campanhas são naturalmente marcadas por promessas: mais
saúde, mais educação, mais segurança, mais infraestrutura, novos programas e
benefícios. Muitas dessas propostas respondem a necessidades reais da
população. Uma cidadania amadurecida, entretanto, não se satisfaz apenas com a
enumeração de objetivos desejáveis. Ela acrescenta perguntas menos sedutoras,
mas indispensáveis: quanto custa? De onde virão os recursos? Quais serão as
prioridades? O que deixará de ser feito?
Ensinar essas perguntas talvez seja tão importante quanto
ensinar as respostas.
E não é necessário apresentar a uma criança uma planilha
orçamentária ou explicar-lhe as complexidades do sistema tributário brasileiro.
Basta começar por uma ideia muito mais simples e poderosa: vivemos em
sociedade, reunimos recursos para realizar objetivos que individualmente não
conseguiríamos alcançar e precisamos decidir, democraticamente, como
utilizá-los.
Direitos, impostos, orçamento e democracia, portanto, não
pertencem a conversas diferentes. São partes de uma mesma discussão sobre a
maneira como escolhemos viver em sociedade.
A Constituição reconhece direitos e organiza as instituições
encarregadas de protegê-los. O Estado transforma escolhas coletivas em serviços
e políticas públicas. A sociedade fornece os recursos necessários para
financiá-los. E o cidadão participa desse processo não apenas quando deposita
seu voto na urna, mas também quando acompanha, questiona, fiscaliza e cobra.
Talvez tenhamos, durante muito tempo, começado essa conversa
pelo fim.
Antes do voto vêm a convivência, os direitos e os deveres.
Vêm a compreensão das regras, do Estado e das instituições. Vêm a percepção de
que escolhas coletivas têm custos, a consciência de que o dinheiro público
pertence à sociedade e o aprendizado de que todo poder deve ser limitado,
acompanhado e fiscalizado.
A urna é o ponto de chegada de uma educação democrática que
deveria começar muitos anos antes.
Neste mês de outubro, enquanto o país ainda estiver
discutindo as escolhas feitas nas eleições, talvez seja uma boa oportunidade
para pensar também nas escolhas que serão feitas daqui a dez ou vinte anos.
As crianças de hoje serão os eleitores, contribuintes,
trabalhadores, servidores públicos, empresários, governantes e representantes
de amanhã. Mas nenhuma dessas condições é tão fundamental quanto aquela que as
antecede: serão cidadãos.
Ensinar uma criança a compreender o Estado não significa
dizer a ela o que pensar sobre o país. Significa oferecer-lhe instrumentos para
que, quando chegar a sua vez, seja capaz de pensar por si mesma sobre o país
que deseja construir.
Antes do eleitor, vem o cidadão. E a cidadania começa muito
antes do voto.

0 Comentários