Sem controle, a doença favorece a formação de úlceras que podem levar a complicações graves
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein
Quem convive com diabetes sabe o quão preocupante e frequente pode ser
o aparecimento de feridas de difícil cicatrização, especialmente nos pés. Os
mecanismos que levam à formação desses machucados são múltiplos e, por isso, a ciência
busca novos meios de ajudar quem convive com essa doença metabólica.
O
problema começa antes mesmo do aparecimento das úlceras. Quando o diabetes não
é controlado em longo prazo, a hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue)
somada ao estresse oxidativo e outras alterações metabólicas leva a inflamações
nos vasos sanguíneos. Esse processo acelera a formação de placas de gordura, o
que contribui para a obstrução das artérias e os problemas de saúde decorrente
disso, incluindo o risco de infarto.
“Esse
conjunto de alterações pode reduzir a chegada de sangue e nutrientes aos
tecidos, fundamentais para o processo de cicatrização quando surge alguma
ferida”, explica a endocrinologista Geísa Maria Campos de Macedo, coordenadora
do departamento de Neuropatias e Complicações nos Pés da Sociedade Brasileira
de Diabetes (SBD).
A
doença também interfere na resposta imunológica, ao prejudicar a atuação das
células responsáveis pela defesa contra infecções. “Essas células passam a
atuar de forma mais lenta, e alterações inflamatórias e o estresse oxidativo
reduzem a capacidade de defesa do organismo", detalha Macedo. “A situação
pode ficar ainda mais grave quando existem complicações como a neuropatia
diabética.”
A
neuropatia diabética ocorre quando a doença descontrolada compromete o
funcionamento dos nervos. É mais comum que afete os nervos periféricos dos pés, o que explica por que a formação das
feridas não cicatrizáveis ocorre frequentemente nesses membros. Muitas vezes, a
pessoa sequer percebe que há algo de errado, pois os pés ficam insensíveis. Em
casos avançados, pode ser necessário amputar um membro.
Um curativo pode ser a resposta
Os
cuidados para evitar a necrose na úlcera devem ser constantes e pode levar
meses até que se alcance a recuperação completa. O jovem Yunes Natal Menezes
Coelho, de 21 anos, estudante de Engenharia Biomédica no Ensino Einstein,
conhece bem essa preocupação. “Meu avô tem diabetes e acompanhei de perto os
cuidados para evitar as complicações nas feridas que ele tinha nos pés, que
foram muitas”, lembra.
Foi
daí que surgiu a ideia de trabalhar em um projeto para desenvolver um curativo
que ajudasse na cicatrização. A proposta combina tecnologias modernas, como a
impressão em 3D de um material gelatinoso, com propostas de eficácia já conhecidas
na sabedoria popular, a exemplo do óleo de semente de uva, com ação
cicatrizante.
“Embora
sejam vários processos, todos convergem para estimular a cicatrização. Usamos um
material que, quando pressionado, gera pequenas descargas elétricas. Essas
cargas podem favorecer a entrada de cálcio nas células, que sinaliza ao
organismo a necessidade de reprodução celular”, relata o engenheiro de
materiais Roger Borges, pesquisador e professor da graduação em Engenharia
Biomédica do Ensino Einstein, orientador da pesquisa de Yunes.
O
projeto também utiliza impressão 3D para controlar a porosidade do curativo e
permitir um melhor funcionamento de suas propriedades combinadas. “O fato de
esse curativo especial estar sendo desenvolvido para a pele já é um diferencial,
já que a maioria desses biomateriais é pensada para a cicatrização de ossos e,
por isso, costuma ser feita em cerâmicas rígidas”, observa Borges.
Em
estudos in vitro, o curativo já demonstrou a capacidade esperada de
gerar pequenas descargas elétricas e bons níveis de segurança na manipulação do
material. A possibilidade de uso em tecidos moles é uma inovação, o que o levou
a ser destaque em congressos internacionais. O próximo evento em que o
protótipo será apresentado é a Materials Science and Technology Conference
2026, que ocorre em outubro, nos Estados Unidos.
A
etapa seguinte dos estudos envolve testes com células da pele para avaliar qual
impacto essa ação combinada pode causar. Depois, serão conduzidos os estudos
pré-clínicos, ou seja, com animais. E ainda serão necessárias análises em
humanos para entender a eficácia e segurança do curativo, na prática.
Cuidado para evitar complicações
Para
quem convive com diabetes, há muito que pode ser feito para evitar essas
complicações. Manter a glicemia sob controle, assim como as taxas de
colesterol, triglicérides e pressão arterial, são medidas essenciais. Pés
inchados, muito avermelhados ou com lesão exigem atenção médica imediata. “Após
uma úlcera, o acompanhamento continua porque a possibilidade de recidiva chega
a 60% no primeiro ano”, destaca a endocrinologista.
Os
cuidados ainda incluem usar calçados adequados, evitar andar descalço, ter
cuidado ao cortar as unhas e manter a hidratação da pele. A neuropatia pode
deixar os pés secos e favorecer rachaduras. A partir dessas lesões, bactérias
podem entrar e provocar infecção. “A avaliação dos pés com um profissional
especializado precisa ocorrer no mínimo anualmente em pessoas com
diabetes", orienta a médica da SBD.
Fonte:
Agência Einstein

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