Estudo mostra que o peso tende a voltar após a interrupção dos medicamentos, reforçando que a obesidade exige tratamento contínuo e uma abordagem que vai além dos remédios
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein
As
canetas para tratar diabetes e obesidade se popularizam cada vez mais como
medicamentos eficazes para a redução do peso. Contudo, se por um lado a ciência
evidencia seus potenciais a favor do emagrecimento e inclusive para outros
aspectos da saúde, também crescem os achados sobre a importância da mudança de
estilo de vida durante o tratamento.
Isso
se deve, em primeiro lugar, ao fato de a obesidade ser uma doença crônica,
assim como outras condições que exigem tratamentos de longo prazo, como
hipertensão e o próprio diabetes. “Quando o tratamento é interrompido, a doença
volta a se manifestar. O reganho de peso não significa falta de força de
vontade ou pouco empenho do paciente. Na verdade, é uma resposta biológica do
organismo, que tenta recuperar o peso perdido”, explica o endocrinologista
Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita.
Medicamentos
como semaglutida e tirzepatida — nomes dos princípios ativos das “canetas
emagrecedoras” — agem sobre um hormônio chamado GLP-1, responsável pelas
sensações de fome e saciedade. Ao frear sua ação, elas fazem a pessoa querer
comer menos, promovendo o emagrecimento. Só que, ao interromper o uso, o
organismo volta a ativar mecanismos que favorecem o ganho de peso.
Daí
por que esses fármacos não devem ser vistos como solução rápida para emagrecer.
“Muitas pessoas apenas usam o remédio, comem menos porque o apetite diminuiu e
emagrecem. Mas, se elas não mudam o padrão alimentar, não praticam atividade
física regularmente e não fazem uma mudança comportamental, a tendência é
recuperar boa parte do peso quando o medicamento é suspenso”, alerta Rosenbaum.
Realidade em evidência
Uma
revisão sistemática publicada
no início de janeiro no BMJ detalha como esse processo ocorre na prática.
Ao analisar 37 estudos com mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade, os
pesquisadores observaram que os participantes recuperaram cerca de 0,4 kg por
mês após suspenderem o tratamento.
Os
participantes avaliados usavam diferentes classes de medicamentos: desde opções
mais antigas, como sibutramina e orlistate, até as terapias mais recentes com
liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Em média, eles permaneceram 39 semanas
em tratamento e continuaram sendo acompanhados por mais 32 semanas após a
interrupção da medicação, permitindo aos pesquisadores observar o comportamento
do peso nesse período.
Quem
tratou a obesidade com medicamentos perdeu, em média, 8,3 kg — mais que o dobro
da perda observada nos grupos controle. Quando o tratamento terminou, porém, o
peso voltou a aumentar gradualmente. No ritmo de 0,4 kg a mais por mês, eles
retornariam ao peso inicial em aproximadamente um ano e sete meses.
Outra
constatação foi que os benefícios metabólicos conquistados durante o uso das
medicações, como melhora da glicemia, colesterol e pressão arterial, também
começaram a diminuir após o fim do uso das medicações.
“As
mudanças no estilo de vida potencializam a perda de peso e aumentam as chances
de manter os resultados no longo prazo”, frisa o endocrinologista do Einstein.
“Os medicamentos são uma ferramenta muito eficaz no tratamento da obesidade,
mas fazem parte de uma estratégia mais ampla. Sozinhos, eles não conseguem
sustentar a perda de peso por muito tempo.”
Resultados sustentáveis
Manter
os resultados de emagrecimento conquistados com as medicações depende de um
conjunto de hábitos saudáveis. Uma alimentação rica em proteínas e fibras ajuda
a aumentar a saciedade e reduzir o consumo de ultraprocessados. Já a prática
regular de exercícios físicos contribui para preservar a massa magra, elevar o
gasto energético e melhorar a saúde cardiovascular. Dormir bem é fundamental
para regular os hormônios relacionados ao apetite, enquanto o controle do
estresse pode reduzir episódios de alimentação emocional.
Embora
alguns pacientes suspendam a medicação e não recuperem todo o peso perdido, não
é possível prever quem terá esse comportamento. Isso porque o organismo
desenvolve mecanismos de defesa contra a perda de gordura. “Esses mecanismos
foram importantes para a sobrevivência da espécie em períodos de escassez de
alimentos. Hoje, eles dificultam a manutenção da perda de peso”, explica o
médico do Einstein.
Segundo
Paulo Rosenbaum, o que se vê é que o reganho tende a ser menor em pessoas que
perderam menos peso, tinham obesidade menos grave e conseguiram manter hábitos
saudáveis consistentemente. “O objetivo não deve ser apenas perder peso
rapidamente, mas tratar uma doença crônica. As canetas para emagrecer fazem
parte desse tratamento, mas o sucesso depende de uma estratégia de longo prazo,
construída entre paciente, médico e equipe multiprofissional”, conclui.
Fonte: Agência Einstein

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