Substâncias usadas em receitas caseiras podem irritar a pele e, em exposições elevadas, causar intoxicação; veja os cuidados
Por Léo
Marques, da Agência Einstein
Parece uma brincadeira inocente: cola,
corante, um pouco de ativador e pronto, você tem um slime, nome da massa
elástica e gelatinosa que virou febre entre as crianças. Mas algumas receitas
populares na internet podem esconder ingredientes que exigem atenção. É o caso
do bórax, também chamado de borato de sódio, e do ácido bórico. Eles ajudam a
formar a textura elástica característica do material.
O alerta ganhou força com a atualização
recente da lista de substâncias proibidas em cosméticos e produtos de higiene
pessoal pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A RDC 1.030/2026 incluiu ácido bórico, óxido bórico e diversos
boratos, entre eles, o bórax. “A mudança acompanha regras do Mercosul e
referências regulatórias internacionais, e considera evidências toxicológicas
acumuladas, sobretudo relacionadas à reprodução e ao desenvolvimento”, explica
a farmacêutica Karina Soeiro, mestre em Ciências Farmacêuticas e pesquisadora
na área de desenvolvimento de cosméticos.
A Sociedade Brasileira de
Pediatria considera
potencialmente perigosa a manipulação de produtos químicos para produzir slime
e recomenda que crianças não manipulem compostos de boro, como bórax e ácido
bórico. A Anvisa também informa que o uso do bórax como
ativador do brinquedo não é uma finalidade regulamentada pela agência. A
substância é autorizada para outras finalidades, como em fertilizantes,
produtos de limpeza e até mesmo em medicamentos.
E se a criança colocar a mão na massa?
A absorção do bórax ou ácido bórico pela pele
íntegra é relativamente limitada. Um estudo em humanos
encontrou passagem de aproximadamente 0,21% a 5% da dose aplicada de derivados
de boro nessas circunstâncias. Assim, uma brincadeira ocasional e breve não
equivale a uma intoxicação sistêmica.
“O risco aumenta quando existe contato
frequente ou prolongado, concentração elevada, grande área do corpo exposta ou
pele com dermatite, fissuras, feridas ou queimaduras”, alerta a pediatra
Quíssila Batista Neiva, coordenadora de Pediatria no Einstein Hospital
Israelita em Goiânia. “O efeito mais esperado do contato cutâneo é local. Pode
haver irritação, ardência, dermatite ou reação alérgica.”
Para crianças pequenas, no entanto, existe uma
questão adicional: as mãos frequentemente vão parar na boca. “O boro é
absorvido pelo trato gastrointestinal em proporção muito maior do que pela pele
íntegra”, alerta Soeiro. A inalação também preocupa, principalmente durante o
preparo, quando o bórax é manipulado na forma de pó.
A ingestão ou inalação de bórax pode causar
náuseas, vômitos, dor e cólicas abdominais, diarreia com coloração azul/esverdeada e
cianose (pele, unhas e lábios azulados ou acinzentados), além de tosse e
alterações respiratórias. Em intoxicações
mais graves, pode ocorrer queda da pressão arterial, alteração do nível de
consciência, choque cardiovascular e problemas renais. Nesses casos, é
necessário atendimento médico imediato.
Estudos com animais apontam que exposições
suficientemente elevadas ao boro apresentam efeitos sobre reprodução e
desenvolvimento. Foram observadas alterações testiculares, prejuízo da produção
de espermatozoides e da fertilidade, além de alterações no crescimento e no
desenvolvimento fetal. “Entretanto, não existe evidência demonstrando que uma
criança que brincou algumas vezes com slime desenvolverá infertilidade,
alteração da puberdade ou prejuízo reprodutivo”, ressalta Neiva.
Também não está comprovado que crianças sejam
biologicamente mais sensíveis à toxicidade do boro do que adultos. “A
literatura toxicológica disponível ainda não permite estabelecer essa diferença
com segurança”, afirma a médica do Einstein em Goiânia. A preocupação
pediátrica está mais relacionada à dose proporcional ao peso, ao uso frequente,
ao comportamento mão-boca e às características fisiológicas da infância,
sobretudo entre lactentes e crianças pequenas, já que alguns sistemas
responsáveis pela distribuição e eliminação de substâncias ainda estão em
desenvolvimento.
“Sem bórax” nem sempre significa sem boro
Outra armadilha está nas receitas de internet
anunciadas como “slime sem bórax”. Isso porque muitas substituem a substância
por solução para lentes de contato. “Só que várias delas contêm ácido bórico e
outros boratos. A troca, portanto, muda apenas a fonte do boro utilizada”,
adverte a farmacêutica.
Também não basta assumir que todo slime
industrializado é livre de boratos. De acordo com Karina Soeiro, muitos
produtos comerciais utilizam compostos de boro. Como exemplo, ela cita um estudo que analisou 127 slimes comercializados em cinco cidades asiáticas.
De acordo com os resultado, 70,1% dos produtos ultrapassavam o limite europeu
de migração de boro de 300 mg/kg estabelecido para brinquedos de material
pegajoso.
“A diferença é que um produto regularizado
deve atender às normas aplicáveis à categoria de brinquedos, enquanto uma
receita doméstica preparada com bórax em pó pode gerar concentrações
completamente imprevisíveis”, observa a especialista. Por isso, ela aconselha
evitar tanto ativadores caseiros preparados com bórax quanto produtos
industrializados de procedência duvidosa.
A indústria nacional, por sua vez, está
incorporando critérios específicos para essas substâncias. A química Neire
Silva, coordenadora do Comitê Brasileiro de Segurança de Brinquedos da
Associação Brasileira das Indústrias de Brinquedos (Abrinq), afirma que a
revisão da série de normas NM 300 inclui limite máximo e método de ensaio para
detectar bórax e ácido bórico em brinquedos. “Quando publicarmos esta norma
revisada, este ensaio será obrigatório”, diz.
Como brincar com menos risco
A solução não é simplesmente proibir todo slime,
mas evitar a fabricação caseira com substâncias químicas inadequadas, como
bórax, ácido bórico ou água boricada, especialmente quando utilizadas em
concentrações desconhecidas. “Se os pais optarem por permitir a brincadeira, a
alternativa de menor risco é escolher produto industrializado destinado
especificamente ao público infantil, regularizado, identificado, com composição
e faixa etária informadas pelo fabricante, e utilizá-lo conforme as
instruções”, aconselha a Quíssila Neiva.
Ela recomenda ainda não permitir a manipulação
de substâncias em pó ou soluções concentradas por crianças, manter os
ingredientes longe dos pequenos e evitar que comam ou bebam durante o manuseio
do slime.
Se houver irritação, a primeira medida é
interromper a brincadeira e lavar a pele com água corrente e sabonete suave. Em
contato com os olhos, é preciso irrigar com bastante água. Bolhas, lesões
extensas, dor intensa e persistente, dificuldade para respirar, vômitos
repetidos, sonolência ou alteração da consciência exigem avaliação médica.
Em caso de ingestão de bórax, ácido bórico ou
quantidade desconhecida de um produto concentrado, a orientação é procurar o
Centro de Informações Toxicológicas (CIT) local e levar, sempre que possível, a
relação ou as embalagens dos produtos utilizados na fabricação do slime.
Além disso, não se deve provocar vômito.
Fonte:
Agência Einstein

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