Na maioria dos casos, o diagnóstico não exige que os parentes antecipem exames; tipo de tumor, idade e histórico familiar indicam quando buscar avaliação especializada
Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein
Entre 5% e 10% dos casos de câncer estão associados a fatores hereditários, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A proporção varia conforme o tumor: cânceres de mama, ovário, intestino, próstata e pâncreas estão entre aqueles para os quais já foram identificadas alterações capazes de elevar o risco de diferentes integrantes de uma família. Em outros, como o câncer de pulmão, a influência da herança genética é presente, porém menos frequente.
Na maioria dos casos, porém, o diagnóstico de
um parente não significa que o resto da família precisa antecipar exames. “A
suspeita de uma síndrome de câncer hereditário, também chamada de câncer
familial, surge a partir do histórico clínico da pessoa e do padrão de cânceres
nos seus parentes e antepassados”, explica o médico epidemiologista Arn
Migowski, da divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do Inca.
Vários casos no mesmo lado da família,
diagnósticos em idades mais jovens e mais de um tumor primário na mesma pessoa
estão entre os sinais que podem justificar uma avaliação especializada. Mas não
existe um critério isolado que confirme a origem hereditária. A idade
considerada precoce varia conforme o tumor,
em geral, abaixo de 50 anos, e o número de parentes afetados precisa ser
analisado com grau de parentesco, tipo de câncer e lado da família onde os
casos ocorreram.
No câncer de mama, chamam a atenção casos em
homens, diagnósticos em mulheres jovens, tumores nas duas mamas, histórico
familiar de câncer de ovário em qualquer idade e tumores triplo-negativos — que
não apresentam receptores de estrogênio e progesterona nem expressão elevada da
proteína HER2. A combinação na mesma linhagem familiar de câncer de mama com
câncer de próstata agressivo, câncer de pâncreas ou melanoma também pode
indicar uma síndrome hereditária.
No câncer colorretal, a suspeita de
predisposição hereditária pode surgir diante de diagnósticos antes dos 50 anos,
presença de múltiplos pólipos em colonoscopias ou histórico familiar de tumores
relacionados. Entre as possíveis causas está a síndrome de Lynch, condição
hereditária que compromete a correção de erros ocorridos durante a duplicação
do DNA e eleva o risco de câncer de intestino, endométrio, ovário, estômago e
trato urinário. Já a presença de muitos pólipos pode indicar outras síndromes
hereditárias, como a polipose adenomatosa familiar.
“Quando o médico suspeita de uma predisposição
hereditária, normalmente encaminha primeiro o paciente para teste genético e
aconselhamento. A partir daí, essa avaliação pode ser recomendada aos
familiares”, afirma a oncologista clínica Clarissa Baldotto, presidente da
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Teste em cascata
A investigação genética começa pela pessoa que
desenvolveu a doença. “Se a variante hereditária foi identificada, aí fica
muito mais fácil testar a família, porque você já sabe que tipo de mutação
procurar e em quem ela deve ser procurada”, explica Baldotto.
É o chamado teste em cascata. Depois que a
alteração é encontrada no paciente, filhos, irmãos e outros familiares próximos
podem fazer um exame direcionado àquela variante, em vez de passar por uma
investigação ampla. A estratégia reduz custos e evita exames desnecessários.
“Em geral, não se testa uma pessoa saudável para predisposição hereditária, a
não ser que ela tenha algum familiar com uma mutação específica ou um histórico
familiar muito importante sem possibilidade de testagem no familiar acometido”,
destaca a oncologista clínica Patrícia Taranto, do Einstein Hospital Israelita.
Na pessoa que desenvolveu o câncer, a
investigação pode recorrer a um painel mais amplo, capaz de analisar diferentes
genes associados à predisposição hereditária. O resultado pode confirmar uma
variante relacionada ao aumento do risco, não encontrar alterações conhecidas
ou identificar uma variante cujo significado ainda não está esclarecido. A
interpretação precisa considerar os tumores presentes na família e as
evidências disponíveis sobre cada gene e, idealmente, deve ser acompanhada por
um profissional especializado em oncogenética.
Quando uma predisposição hereditária é
confirmada — ou o histórico familiar indica risco elevado mesmo sem uma mutação
identificada —, o rastreamento pode começar em uma idade mais jovem, ocorrer em
intervalos menores ou incluir exames diferentes daqueles recomendados à
população geral.
Migowski cita como exemplo as pessoas com
risco elevado de câncer de mama, para as quais o acompanhamento pode incluir
ressonância magnética. Nas síndromes relacionadas ao câncer colorretal, podem
ser indicadas colonoscopias mais precoces e frequentes. Dependendo da mutação,
também podem ser discutidos medicamentos ou cirurgias para reduzir o risco,
como a retirada das mamas ou dos ovários.
Antecipar exames por conta própria não oferece
proteção adicional. “Em geral, as pessoas acreditam que quanto mais exames,
melhor, e que um exame mais complexo trará um resultado melhor, mas isso não é
verdade”, diz Clarissa Baldotto. “Realizar um exame de rastreamento sem
indicação adequada pode aumentar o número de falsos positivos e levar à
ansiedade, biópsias desnecessárias e possíveis complicações.”
Alguns métodos de rastreamento, como a
mamografia, utilizam radiação ionizante. Embora a dose seja baixa, repetir o
exame sem indicação aumenta a exposição acumulada. Há ainda o risco de
sobrediagnóstico e sobretratamento, quando são identificadas e tratadas lesões
que não evoluiriam a ponto de ameaçar a saúde. “Toda a jornada e o rastreamento
devem ser balizados por um profissional especializado, que avalie o risco
específico daquele paciente, considerando não só o histórico familiar, como
também seus hábitos e antecedentes”, acrescenta Taranto.
Tecnologias buscam ampliar a detecção precoce
Uma pessoa saudável pode receber orientação
sobre prevenção e rastreamento de câncer de acordo com o histórico familiar, os
hábitos e os exames recomendados conforme o risco individual, necessariamente
ter alguma mutação de predisposição hereditária. Esse é o modelo adotado pelo
Centro de Personalização e Prevenção do Câncer do Einstein, que avalia pessoas
saudáveis, com ou sem histórico familiar da doença, para direcionar um programa
de prevenção personalizado. Quando os dados levantam a suspeita de
predisposição hereditária, o paciente pode ser encaminhado à equipe de
oncogenética. O centro também mantém contato e direcionamento com áreas como
imunização, saúde mental e medicina do estilo de vida, conforme as necessidades
identificadas.
Outras tecnologias tentam ampliar a detecção
precoce para tumores que ainda não contam com programas de rastreamento. Entre
elas estão os testes de biópsia líquida com detecção precoce de múltiplos
cânceres em pessoas saudáveis, que procuram no sangue sinais moleculares
liberados por tumores. Esses exames buscam indícios de que um câncer já esteja
presente, mesmo antes do surgimento de sintomas e de detecção por imagem.
Dois estudos sobre um desses testes foram
apresentados no congresso de 2026 da Sociedade Americana de Oncologia Clínica
(Asco), em junho. No PATHFINDER 2, que acompanhou 35.878 pessoas com 50 anos ou
mais sem suspeita clínica de câncer, o exame encontrou um sinal positivo em 287
participantes. A doença foi confirmada em 173 deles no período de um ano. Já o
NHS-Galleri avaliou 142.924 adultos sem sintomas e comparou o exame anual
associado ao rastreamento habitual com o rastreamento habitual isolado. O teste
aumentou a detecção de tumores por rastreamento e reduziu os diagnósticos no
estágio 4, mas não alcançou o objetivo principal de diminuir o conjunto de
casos identificados nos estágios 3 e 4.
Os resultados indicam uma possibilidade para o
futuro, mas ainda não demonstram que a antecipação do diagnóstico reduza a
mortalidade. Esses testes também não substituem mamografia, colonoscopia, exame
do colo do útero ou tomografia de baixa dose do tórax quando indicados. Um
sinal suspeito precisa ser investigado por outros métodos para localizar e
confirmar a doença.
Poucos centros oferecem o exame
O acesso a testes genéticos já utilizados na
oncologia permanece restrito no Brasil. “Hoje, esse atendimento está
concentrado nos grandes centros de oncologia, onde existem grupos de pesquisa
ou áreas mais estabelecidas de oncogenética”, afirma Luciana Holtz, fundadora e
presidente do Instituto Oncoguia.
Em maio, o Ministério da Saúde incorporou ao
Sistema Único de Saúde (SUS) o sequenciamento de nova geração para identificar
mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 em mulheres com câncer de mama. A portaria
estabeleceu um prazo máximo de 180 dias para a oferta ser efetivada na rede
pública. A medida pode orientar o tratamento e acompanhamento das pacientes,
mas não contempla a testagem em cascata de familiares saudáveis. “O teste foi
aprovado sem uma linha de cuidado”, avalia Holtz.
O relatório da Comissão Nacional de
Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) reconhece obstáculos como a falta
de infraestrutura laboratorial, a escassez de profissionais capacitados e a
necessidade de aconselhamento genético antes e depois do exame. Também será
preciso definir como as pacientes serão selecionadas, testadas e acompanhadas,
e o que acontecerá com os familiares quando uma mutação for encontrada.
“Historicamente, o rastreamento de câncer no
Brasil é oportunístico: ocorre quando a pessoa comparece a uma consulta por
outros motivos, e não por meio de um programa organizado de base populacional.
Isso traz diversos problemas”, afirma Migowski. Entre as iniciativas recentes
para tentar mitigar o problema estão a implantação de um programa organizado de
rastreamento do câncer do colo do útero, com testes moleculares para detectar o
HPV oncogênico, e a criação de um programa de rastreamento do câncer
colorretal.
Já o rastreamento baseado no risco individual
ainda não foi incorporado como política de rotina, exceto para pessoas com
síndromes hereditárias confirmadas. “Para isso, é fundamental estruturar melhor
uma rede de genética clínica no país para aconselhamento genético, porque não
se trata apenas de fazer testes”, completa o especialista do Inca.
Impacto na família
O diagnóstico também afeta quem está ao redor
do paciente, mesmo sem uma predisposição hereditária confirmada. “Dá para falar
que, consideradas as devidas proporções, o câncer vira uma doença da família.
Todo mundo é impactado de diferentes maneiras”, afirma Holtz.
Entre os familiares, o medo de também
desenvolver a doença pode surgir antes mesmo de qualquer avaliação médica.
“Esse risco precisa ser avaliado para saber quanto ele é real”, diz a
presidente do Oncoguia. Em alguns casos, o medo assume o que ela chama de
“sensação de contaminação”, como se a proximidade com a doença significasse que
o familiar também está adoecendo.
Separar o risco clínico do sofrimento
provocado pela proximidade com a doença ajuda a definir qual cuidado é
necessário. “Uma coisa é a dor de quem eu amo e outra é a minha dor”, afirma
Luciana Holtz. Quando existe uma mutação identificada na família, o
aconselhamento genético pode indicar quem deve considerar a testagem e quais
decisões podem decorrer do resultado. Ainda assim, fazer o exame não é uma
obrigação.
A conversa sobre o histórico familiar deve ser
transparente e ter apoio profissional, pois o diagnóstico também pode alterar
os papéis na família. Filhos, cônjuges e irmãos passam a acompanhar consultas,
organizar o tratamento e assumir tarefas de cuidado, muitas vezes sem perceber
a sobrecarga. Para Holtz, é importante distinguir o vínculo familiar da função
de cuidador e preservar espaço para ambos.
A ajuda também deve considerar o que o
paciente deseja, em vez de partir do pressuposto de que o familiar precisa
assumir todas as decisões e responsabilidades. Alterações persistentes no sono,
no trabalho ou na convivência social podem indicar a necessidade de apoio
psicológico. O objetivo não é eliminar toda preocupação, mas impedir que um
risco ainda desconhecido ou inexistente passe a organizar a vida da família.
Fonte: Agência Einstein

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