Combinação de litotripsia intravascular e
balão farmacológico apresentou
resultados promissores em artérias
coronárias de pequeno calibre
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein
A calcificação das artérias coronárias é um dos indicadores de maior risco quando se trata da saúde do coração. Estima-se que a associação do cálcio com o acúmulo de gordura ao longo dos anos ocorra em nove de cada 10 pacientes com aterosclerose. Ainda que não tenha sintomas aparentes, esse processo obstrui os vasos, tornando-os mais rígidos, e aumenta muito o risco de complicações como o infarto.
Tratar
a calcificação, portanto, é um dos focos da cardiologia intervencionista, mas
isso pode trazer desafios, especialmente no caso de artérias pequenas. Entram
nessa categoria aquelas com um diâmetro menor que 3 milímetros, o tamanho
aproximado de um grão de sal grosso. No caso delas, o uso de stents — abordagem
mais comum para desobstrução — pode trazer complicações na cicatrização que,
por vezes, comprometem o resultado da intervenção.
Foi
pensando em alternativas para evitar esses problemas que médicos do Einstein
Hospital Israelita começaram a estudar uma nova técnica terapêutica. Criada em parceria com pesquisadores da Universidade de Verona, na
Itália, ela não utiliza stent para tratar as placas de gordura
calcificadas e se mostrou eficaz e sujeita a poucas complicações no médio
prazo, como a reobstrução.
“Os
stents coronários são muito importantes na medicina, mas parte dos pacientes
pode apresentar novas obstruções no mesmo local tratado e, nesses casos, ter o
stent já instalado pode ser um complicador. Por isso, ter outra forma de tratar
a aterosclerose e sua calcificação é um horizonte tão animador para nós”,
resume o cardiologista intervencionista Guy Fernando de Almeida Prado Junior, que
atua no Einstein e participou do desenvolvimento da técnica.
A
alternativa criada pelos médicos brasileiros para combater a calcificação
combina duas técnicas. Primeiro, é feita uma litotripsia intravascular, na
qual, por meio de um balão, são emitidas ondas sonoras que fraturam o cálcio e,
assim, aumentam a elasticidade da artéria. A lisantropia intravascular utiliza o
mesmo princípio físico do tratamento empregado para fragmentar cálculos renais.
Em seguida, com o vaso já desobstruído, utiliza-se um balão farmacológico, que
libera medicamentos na parede da artéria para reduzir o risco de novas
obstruções decorrentes do processo de cicatrização do vaso, não sendo
necessário, portanto, o uso de stents.
A
abordagem foi aplicada em 50 pacientes no Brasil e na Itália, e os resultados foram
apresentados em maio no EuroPCR, em Paris, durante uma sessão de destaque do
congresso, que é um dos maiores do mundo na área da cardiologia. Com a técnica,
foi possível tratar as artérias de 88% dos pacientes. Além disso, não foram
observadas complicações e, no acompanhamento realizado com os voluntários seis
meses após o procedimento, os resultados obtidos com a técnica se mantiveram.
Alternativa para vasos de pequeno calibre
A
combinação de técnicas proposta pelos brasileiros trouxe indícios de que é
possível dilatar e manter a artéria calcificada aberta sem deixar material
permanente no organismo. “Embora o termo descalcificação seja frequentemente
utilizado, ele não explica tão bem a técnica. Não estamos retirando cálcio das
artérias, mas reduzindo a sua rigidez, devolvendo maleabilidade a elas”,
explica o cardiologista intervencionista Pedro Lemos, diretor de Cardiologia do
Einstein.
Segundo
ele, o cálcio torna a artéria endurecida como um mármore. “O que fazemos é
colocar esse bloco de cálcio para vibrar até quebrá-lo. Não comprometemos a
artéria, mas fraturamos essa parede de ‘mármore’ e permitimos que o sangue
volte a passar por ali”, detalha.
A
litotripsia intravascular utiliza emissores de energia acústica instalados em
um balão de angioplastia. Após as ondas sonoras quebrarem o acúmulo de cálcio,
os médicos utilizam um balão farmacológico com medicamentos inflado no ponto
exato da obstrução, cobrindo o vaso com medicação para evitar que sua
cicatrização, eventualmente, volte a obstruir o próprio vaso.
Resultados ainda precisam de acompanhamento
Os
pesquisadores avaliaram 50 pacientes com artérias coronárias finas e
severamente calcificadas. Alguns deles já haviam sofrido infartos em
consequência dos comprometimentos do sistema circulatório. Um novo cateterismo
realizado seis meses depois da angioplastia mostrou que os pacientes tratados
com essa técnica mantiveram o calibre da artéria ou até o ampliaram em alguns
casos, desfecho raro para esse tipo de intervenção. O manuscrito que detalha a
nova técnica está em revisão por pares e deve ser publicado nos próximos meses.
A
equipe ressalta, porém, que os dados ainda não permitem determinar de maneira
definitiva como a técnica se comporta no longo prazo, já que novos estudos e
com populações mais amplas ainda serão necessários para confirmar os resultados
preliminares. “Precisamos de novas pesquisas para saber como os pacientes
estarão cinco, dez anos após o procedimento para avaliar como é seu resultado a
longo prazo”, observa Lemos. “O que temos agora é um acompanhamento de média
duração, mas que é quando ocorrem as principais complicações. Por isso, temos
muita expectativa a partir da recepção que tivemos na EuroPCR.”
As
avaliações futuras também deverão incluir análises de custo-efetividade, mas os
pesquisadores esperam que o investimento seja semelhante ao que já é aplicado
para os implantes de stent. “Nosso objetivo com a pesquisa não é substituir o
stent ou fazer parecer que ele é ineficaz. Buscamos uma alternativa para não
dependermos apenas desse tratamento. Ficamos felizes com os bons resultados
dessa opção, tão eficaz quanto o stent e sem necessidade de implante,
especialmente nos vasos de menor calibre”, completa Lemos. Estudos maiores,
comparativos e com seguimento de longo prazo serão necessários para estabelecer
a segurança e a eficácia do tratamento e definir quais pacientes podem obter
maior benefício.
Fonte:
Agência Einstein

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