Pesquisa sugere que a combinação de três medicamentos em um único comprimido pode ajudar a manter a regularidade da terapia entre diferentes tipos de pacientes
Por Arthur Almeida, da Agência Einstein
A hipertensão arterial, popularmente chamada
de pressão alta, é uma doença crônica caracterizada pelo aumento na pressão
sobre as paredes das artérias. Isso faz com que o coração precise trabalhar com
maior intensidade para garantir a circulação sanguínea pelo organismo. Essa
condição está entre os principais fatores responsáveis pela ocorrência de
eventos potencialmente fatais, como acidente vascular cerebral (AVC), infarto,
aneurisma e insuficiência cardíaca.
A prevalência da pressão alta na população
adulta do Brasil é de 29,7%, segundo relatório publicado em julho pelo Ministério da Saúde.
Desses casos, cerca de 80,7% são tratados com medicamentos. Ou seja, 19,3% das
pessoas diagnosticadas com a doença não seguem o devido cuidado para controlar
a hipertensão.
A constatação reitera uma preocupação antiga:
a irregularidade no seguimento da terapia. “Temos um mundo de medicações para
tratar a hipertensão. Boa parte desses remédios é oferecida gratuitamente pelo
Sistema Único de Saúde (SUS). Da mesma forma, o diagnóstico da condição também
é fácil, exigindo apenas a avaliação pressórica no consultório ou a indicação
de exame de monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA)”, explica o
cardiologista Vagner Madrini Junior, pesquisador na Academic Research
Organization (ARO), do Einstein Hospital Israelita.
O principal gargalo no combate à hipertensão é
a dificuldade na adesão ao tratamento. “Estudos apontam que apenas 20% a 40%
dos pacientes com hipertensão conseguem, de fato, manter sua pressão controlada
e, para chegar a esse resultado, cerca de dois terços deles precisam tomar pelo
menos duas classes de medicações diferentes”, relata Madrini. Dessa forma, é
comum que o paciente se confunda com as medicações, esqueça de tomá-las ou
simplesmente abandone o tratamento — sobretudo quem já convive com outras
doenças crônicas, como diabetes e colesterol alto.
Simplificação do tratamento
Sem o uso dos remédios em pessoas com
hipertensão, a pressão tende a ficar descontrolada. Consequentemente, também
cresce o risco de complicações associadas ao quadro. Daí veio a ideia do ensaio
clínico OPTION TREAT, desenvolvido por pesquisadores do Einstein, em
colaboração com a Libbs Farmacêutica, a Universidade São Francisco (USF) e o
Centro Universitário CESMAC. Os autores verificaram a eficácia da combinação em
comprimido único de três remédios (candesartana, clortalidona e anlodipino), o
que teria o potencial de aumentar a adesão ao tratamento.
Embora já existam comprimidos que combinem
dois ou três princípios ativos, a pesquisa foi a primeira no Brasil a usar o
clortalidona. “Estudos anteriores mostram que, em sua formulação simples, esse
diurético tiazídico de alta potência tem eficácia amplamente comprovada no
combate à pressão alta, no entanto, ainda não se conhecia seu efeito em uma
combinação com outros medicamentos”, relata Vagner Madrini, que fez parte da
equipe por trás do ensaio clínico, publicado em agosto de 2025 no periódico JACC: Advances.
A pesquisa verificou que, após 12 semanas de
tratamento, a redução média da pressão sistólica foi de 22,6 mmHg entre os
adultos que receberam o comprimido proposto, ante uma diminuição de 18,2 mmHg
no grupo de controle, tratado com uma combinação de outros componentes: valsartana,
hidroclorotiazida e anlodipino.
“Logo no início houve uma queda importante da
pressão, que se manteve estável ao longo de todas as semanas de
acompanhamento”, detalha a cardiologista Patrícia Oliveira Guimarães, que atua
como head de Ensaios Clínicos em Cardiologia na ARO Einstein e também
fez parte da condução do estudo. “Isso nos mostra que a resposta ao medicamento
ocorre principalmente no começo do tratamento.”
Identificou-se ainda que a proporção de
pessoas que conseguiram atingir uma pressão arterial abaixo de 140/90 mmHg,
referência adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para definir
hipertensão, foi maior entre aqueles que fizeram uso da nova pílula combinada:
69,3% dos pacientes, contra 59,8% do grupo controle.
Sexo, raça e risco cardiovascular importam?
Para o artigo original, os pesquisadores
consideraram a amostra completa de 703 adultos com hipertensão não controlada.
Naquele contexto, quanto mais diversa a população analisada, mais os resultados
seriam próximos da população real. “Mas sabemos que, hoje, há um interesse cada
vez maior em analisar populações específicas que, historicamente, foram
negligenciadas pelos estudos clínicos e verificar se um tratamento avaliado
globalmente se mantém nesses grupos, dado que, muitas vezes, há variações de
resposta conforme o organismo”, pontua Guimarães.
Em desdobramento mais recente do projeto, a
equipe avaliou se sexo biológico,
raça e nível de risco cardiovascular do paciente poderiam alterar a resposta ao
tratamento proposto. Os achados foram apresentados durante o Congresso da
Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), realizado em agosto, na Alemanha. Em
todas as subanálises, a pílula desenvolvida mostrou-se superior à terapia
utilizada no grupo controle, embora a intensidade da queda da pressão tenha
variado de acordo com as particularidades de cada pessoa.
Na análise por sexo biológico, por exemplo,
verificou-se que mulheres apresentaram uma redução média de 23,9 mmHg na
pressão arterial sistólica ao longo de 12 semanas, ante 18,7 mmHg entre os
homens. O dado chama atenção por ocorrer mesmo diante da maior vulnerabilidade
a problemas cardiovasculares que elas costumam apresentar com o passar dos
anos, sobretudo após a menopausa, em razão da diminuição da produção de
estrogênio e outros hormônios cardioprotetores.
Por sua vez, na avaliação segundo raça, a
equipe chegou à conclusão de que pacientes brancos, negros e pardos respondiam
de maneira semelhante ao novo tratamento proposto. De acordo com o estudo,
independentemente da raça, houve uma redução adicional média de 5,48 mmHg na
pressão sistólica em comparação ao outro tratamento. O dado reforça o potencial
de aplicação da estratégia em populações diversas, o que é particularmente
relevante em países marcados pela miscigenação, como o Brasil.
Finalmente, no desdobramento considerando o
risco cardiovascular dos pacientes, observou-se que aqueles classificados como
de risco baixo ou intermediário apresentaram uma redução adicional média de
4,13 mmHg na pressão sistólica em comparação com os de alto risco. Ou seja, embora
o comprimido seja um pouco menos eficiente nos casos mais graves de
hipertensão, a estratégia parece ser mais vantajosa do que a terapia
convencional.
“Em todos os casos analisados, a pressão
estava alta e a terapia tripla anti-hipertensiva combinada conseguiu demonstrar
uma boa resposta”, observa Patrícia Guimarães. “Concluímos que, mais importante
do que comparar os diferentes grupos entre si, é comparar as pessoas com elas
mesmas. No consultório, estamos diante de um paciente só, e o que importa é tratá-lo
tendo em mente sua própria evolução durante o tratamento.”
Fonte: Agência Einstein

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