Avanços
na medicina ampliaram a longevidade dessa população, mas com isso crescem os
riscos associados a esse processo, como doenças crônicas e degenerativas
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein
Os
avanços da medicina, da prevenção e dos cuidados de saúde fizeram com que
pessoas com diferentes tipos de deficiência passassem a viver mais. Essa maior
longevidade, no entanto, traz desafios: aprender a lidar com as mudanças
naturais do envelhecimento em um organismo que já convive com limitações, sejam
elas motoras, intelectuais ou sensoriais.
E não
existe uma regra única: a forma como uma pessoa com deficiência (PCD) envelhece
é influenciada não só pelo tipo e a intensidade da condição, mas também os
cuidados e o suporte que recebeu ao longo da vida. “Nosso envelhecimento
depende de como a gente constrói isso na juventude também, além das nossas
condições eventualmente genéticas ou de saúde”, afirma o geriatra Marcelo
Altona, do Einstein Hospital Israelita.
Vacinação,
prevenção, avanços cirúrgicos e melhores tratamentos contribuíram para aumentar
a longevidade de toda a população, inclusive das pessoas que vivem com
deficiência. O maior conhecimento sobre cada condição também permitiu antecipar
problemas e melhorar o acompanhamento, contribuindo para uma vida mais longa e
com mais qualidade.
Mas
viver mais também significa enfrentar problemas que antes eram menos observados
nessa população. E as consequências do envelhecimento variam de acordo com a
deficiência. Em indivíduos com comprometimento predominantemente motor, como
aquelas com paralisia cerebral sem déficit intelectual, paraplegia ou
amputação, os efeitos do envelhecimento tendem a aparecer principalmente sobre
o aparelho locomotor.
Com a
idade, independentemente de ter algum tipo de deficiência, todo mundo perde
massa e força muscular. Mas, para quem já tem dificuldade de locomoção, essa
perda pode ter um impacto ainda maior sobre a independência, e estratégias que
funcionaram durante anos para compensar uma limitação podem deixar de funcionar
tão bem.
“Uma
pessoa jovem com problema de mobilidade pode ter braços fortes que ajudam. Com
o passar dos anos e com o envelhecimento, os braços fortes que antes ajudavam
não ajudam mais da mesma maneira”, exemplifica Altona. Nesses casos, o geriatra
explica que podem surgir quadros de sarcopenia, osteoporose, fragilidade, dores
crônicas e lesões de pele, além de uma piora progressiva da mobilidade.
A
própria dificuldade de se movimentar também pode favorecer o sedentarismo e,
indiretamente, aumentar o risco de doenças crônicas, como obesidade,
hipertensão e diabetes. Isso não significa que a deficiência física provoque
essas doenças, mas que as barreiras para se exercitar e manter outros hábitos
saudáveis podem aumentar a vulnerabilidade ao longo dos anos.
Já nos
casos de deficiências intelectuais, existem outros desafios. Dependendo do grau
de comprometimento, a pessoa pode precisar de ajuda para organizar a alimentação,
procurar atendimento médico, tomar medicamentos ou manter uma rotina de
prevenção. Por isso, a rede de apoio construída ao longo da vida pode fazer
diferença na maneira como ela envelhece.
O
próprio atendimento médico pode ser mais complexo. “Durante a consulta clínica,
dependendo do caso, é mais difícil saber exatamente o que a pessoa sente.
Então, você precisa muito de uma parceria com o cuidador, que pode ser familiar
ou não”, diz o geriatra.
Esse
apoio ganha outra dimensão com o passar dos anos. Muitas pessoas com
deficiência intelectual dependem dos pais desde a infância, mas esses
cuidadores também envelhecem e podem adoecer ou morrer. Nesses casos, o cuidado
precisa ser assumido por irmãos, outros parentes ou pela rede de assistência
social.
Pessoas
com síndrome de Down têm particularidades adicionais e, por isso,
convencionou-se considerar os 40 anos como um marco para o início do
envelhecimento nessa população. Alguns sinais podem aparecer mais cedo,
inclusive mudanças visíveis. “A pessoa com síndrome de Down pode ter cabelos
brancos e rugas mais cedo do que a população em geral. O mesmo acontece com o
envelhecimento do aparelho locomotor, com a sarcopenia e a osteoporose”, afirma
Marcelo Altona. Há ainda uma predisposição genética maior à doença de
Alzheimer, exigindo atenção também às mudanças cognitivas ao longo dos anos.
Cuidado precisa ir além das doenças
O
acompanhamento das pessoas com deficiência, no entanto, não pode se limitar ao
diagnóstico e ao tratamento de doenças. Com o avanço da idade, é preciso
observar risco de quedas, perda de força, alterações cognitivas e de humor,
incontinência, mobilidade, capacidade de comunicação e suporte familiar. Saúde
mental, sexualidade e autonomia também fazem parte dessa avaliação, mas podem acabar
em segundo plano diante das muitas demandas médicas e de reabilitação.
Esse é
um desafio porque muitas pessoas com deficiência já convivem com uma extensa
rotina de cuidados, que pode fazer parte da vida desde a infância, como
fisioterapia, terapia ocupacional, acompanhamento psicológico, nutricional e
fonoaudiológico, além das consultas médicas. Quando surgem novas complicações,
o atendimento tende a se concentrar no problema mais urgente e sobra menos
espaço para prevenção. “Quando a prevenção da pessoa com deficiência deve ser
cobrada? Quando está tudo bem e não quando acontece alguma coisa”, orienta o
médico do Einstein.
As
recomendações para envelhecer de maneira saudável são as mesmas para quem não
tem deficiência: alimentação equilibrada, sono adequado, atividade física,
controle do estresse, estímulo cognitivo, convivência social e evitar tabaco e
álcool. A diferença está na forma de colocá-las em prática, que pode precisar
ser adaptada ao tipo e ao grau de deficiência.
Algumas
adaptações podem ser necessárias. Na atividade física, por exemplo, uma pessoa
com limitação motora pode precisar de órteses ou outros equipamentos e se
adaptar melhor a exercícios na água ou realizados sentada ou deitada. Nas
deficiências intelectuais, pode ser necessário encontrar atividades que a
pessoa compreenda, aceite e tenha prazer em realizar. “A diferença entre o
ideal e o factível é importante. Às vezes, uma caminhada bem feita é melhor do
que um triatlo que ninguém vai conseguir fazer”, conclui Altona.
Fonte: Agência Einstein

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